sábado, 10 de dezembro de 2011

PESCARIA


"... Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdia nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.


Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20. ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? 


Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por ai se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai enealcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa... " (João Guimarães Rosa)










O isolamento é a única maneira encontrada para procurar entender os mistérios da alma, o incompreensível da vida.


Como o pai, eu também vim buscar o desconhecido dentro de mim mesma. 









                                                                        
Estas fotos foram tiradas aqui ó ...

2 comentários:

LÉCIO disse...

Vida, texto e fotos na canoa em harmonia e remando juntos.Bela matéria. Te adoro, sucesso sempre

Cacaudu disse...

Pescador que é pescador pesca em silêncio e nesta hora ele pode pensar com a alma, ficar mais tête à tête com o nosso Deus numa pista livre, sem impedimentos e pode perguntar “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Você já tem pose, leva jeito, se não para o pescar, com certeza "para entender os mistérios da alma, o incompreensível da vida", visto por tudo o que você posta e divide com a gente. Bjos Du